Este mandamento, que o Senhor manda Moisés falar a toda a comunidade dos israelitas, está no início do capítulo 19 do livro do Levítico. A santidade do povo é uma exigência decorrente da Aliança feita com o Deus da santidade que o libertou do Egito opressor. Todo o capítulo “é um verdadeiro tratado de espiritualidade, que ensina o povo a trilhar o caminho da santidade.” Como Senhor é um Deus libertador, a santidade está na linha da prática da justiça libertadora, da busca de vida para o outro, para produzir um relacionamento comunitário que concretize o projeto de Deus. O preceito fundamental vai aparecer nos versículos 17-18, quando fala doamor ao próximo. Amar com amor misericordioso, eis o núcleo da santidade. Não é a isto que nos conduz a Eucaristia? Basta lermos o capítulo 13 de São João, falando-nos do lava-pés, que é um serviço ao próximo. A Eucaristia que não nos conduz ao serviço misericordioso para com o próximo é uma caricatura de eucaristia.
Não é difícil perceber que a santidade de Deus está na sua misericórdia, ou seja, no gerar vida para o povo, que estava oprimido no Egito. Percebemos que tanto São Mateus como São Lucas baseiam-se neste texto do livro do Levítico, quando falam do ser perfeito (Mt) e ser misericordioso (Lc). Mateus traduz o texto de Lv 19,2 dizendo: “Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Aqui temos uma visão legalista, própria do autor, que deixa em seu evangelho traços de sua origem rabínica. Os estudiosos acham que o evangelho de São Lucas, neste ponto, guarda o original das palavras de Jesus. Em Lc 6,36 lemos: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”. Lucas, assim, vê a santidade em termos de misericórdia. Acho melhor a versão de São Lucas. Ser santo é buscar a libertação e a vida para o nosso próximo. Não se trata tanto de uma preocupação consigo mesmo (perfeição), mas com o outro (misericórdia). Quem se preocupa com o outro está cheio de Deus. Na verdade o endereço do Deus da santidade está no coração daquele que precisa do nosso amor, da nossa caridade, ou seja, da nossa misericórdia capaz de ajudá-lo a ter mais vida, a ser mais gente, a viver aquilo que ele realmente é: imagem e semelhança de Deus, templo vivo do Espírito Santo de Deus.
Dom Emanuel Messias de Oliveira
Bispo diocesano de Caratinga



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